quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Hefesto: Introdução

do site Theoi, com tradução de Janilson Gomes.
Para ler o texto em inglês clique aqui.




Hefesto, o deus do fogo, era, de acordo com Homero, filho de Zeus e Hera (Il. i. 578, xiv. 338, xviii. 396, xxi. 332, Od. Viii. 312.) Antigas tradições afirmam que ele não tinha pai, e que Hera o concebeu sem Zeus, por ciúmes à conceição de Atena por Zeus, sem ela. (Apollod. i. 3. parágrafo 5; Hygin. Fab. Praef.) No entanto essa versão é contrária a história comum na qual Hefesto cindiu a cabeça de Zeus, e o ajudou no nascimento de Atena. Uma interpretação mais recente da antiga tradição diz que Hefesto pulou da coxa de Hera, e que sua filiação foi mantida em segredo. Com intuito de descobrir seu parentesco ele recorreu a um estratagema. Hefesto construiu uma cadeira na qual quem sentasse ficaria preso, e assim aprisionou Hera, e se recusou a libertá-la até que ela dissesse quem eram seus pais. (Serv. ad. Aen. vii. 454, Eclog. iv. 62.) Para mais informações sobre sua origem: Cícero (de Nat. Deor. iii. 22), Pausanias (viii. 53. parágrafo 2º). E Estathius (ad Hom. p. 987).

Hefesto é o deus do fogo, especialmente o fogo que se manifesta como um poder da natureza nas zonas vulcânicas, e na medida em que é indispensável para a arte e manufaturas; daí que o fogo é chamado o fôlego de Hefesto, e o nome do deus era usado pelos poetas Gregos e Romanos como sinônimo para fogo. Assim como as chamas surgem de uma pequena faísca, também nasceu o deus do fogo delicado e enfraquecido. Razão pela qual sua mãe nutria por ele tão profunda antipatia que quis se livrar dele jogando-o do Olimpo. Porém as divindades marinhas, Tétis e Eurínome, o acolheram, e com elas ele habitou por nove anos em uma gruta, cercado por Oceano, fazendo para elas uma variedades de ornamentos. (Hom. Il. xviii. 394, &c.) Foi durante esse período, de acordo com alguns relatos, que ele fez a cadeira na qual puniu sua mãe por sua carência de afeto, e da qual não a libertou até que ser convencido por Dionísio. (Paus. i. 20. parágrafo 2; Hygin. Fab. 166.)

Ainda que Hefesto se lembrasse da crueldade de sua mãe, ele era gentil e obediente a ela, ou melhor, uma vez ela estava discutindo com Zeus e ele tomou seu partido na discussão, e assim ofendeu tanto seu pai que ele o agarrou pela perna e o atirou do Olimpo. Hefesto passou um dia inteiro caindo, e ao anoitecer chegou a ilha de Lemnos, onde foi gentilmente recebido pelos Síntios. (Hom. Il. i. 590, &c. Val. Flacc. ii. 8.5; Apollod. i. 3. parágrafo 5, que, entretanto, confunde as duas ocasiões onde Hefesto foi atirado do Olimpo.) Antigos escritores atribuem sua coxeadura a essa segunda queda, enquanto Homero o atribui desde o nascimento.

Após sua segunda queda ele retornou ao Olimpo, e atuou como mediador entre os pais. (Il i. 585.) Nessa ocasião ele ofereceu uma taça de néctar para sua mãe e para os outros deuses, que irromperam em uma risada sem moderação ao vê-lo mancando apressado pelo Olimpo de um deus a outro, pois ele era feio e lento, e, devido a fraqueza de suas pernas, quando andava era sustentado por suportes artificiais, habilmente feitos de ouro. (Il. xviii. 410, &c., Od. viii. 311, 330.) Seu pescoço e seu peito, entretanto, eram fortes e musculosos. (Il. xviii. 415, xx. 36.)

No Olimpo, Hefesto possuía seu próprio palácio, imperecível e brilhante como as estrelas: nele estava sua oficina, com a bigorna e vinte foles, que trabalhavam espontaneamente ao seu comando. (Il. xvii. 370, &c.) Foi lá que ele fez todos seus belos e maravilhosos trabalhos, utensílios e armas, para deuses e para homens. Os antigos poetas e mitografos são abundantes em passagens descrevendo trabalhos de requintado artesanato que foram manufaturados por Hefesto. Em antigos relatos, os ciclopes Brontes, Estéropes, Arges e outros eram seus operários e servos e sua oficina não é mais representada no Olimpo e sim no interior de alguma ilha vulcânica. (Virg. Aen. viii. 416, &c)

A esposa de Hefesto também vivia em seu palácio: na Ilíada ela é chamada Carite, na Odisseia Afrodite (Il. xviii. 382, Od. viii. 270), e na Teogonia (945) seu nome é Aglaia, a mais jovem das Charites. A historia da infidelidade de Afrodite para com seu marido, e a maneira na qual foi surpreendida por ele é requintadamente descrita na Odisseia (Od. viii. 266-358.). O poema homérico não menciona nenhum descendente de Hefesto, porém em antigos escritos o número de filhos seus era considerável. Na guerra de Troia ele esteve ao lado dos Gregos, porém também era cultuado em Tróia, e em uma ocasião salvou um troiano de ser morto por Diomedes. (Il. v. 9 &c.)

Seu lugar favorito na terra era a ilha de Lemnos, onde ele gostava de viver entre os Síntios (Od. viii. 283, &c., Il. i. 593; Ov Fast. viii. 82); porém outras ilhas vulcânicas também, como Lípara, Hiera, Imbros (hoje Gökçeada) e Sicília eram chamadas de suas moradas e oficinas. (Apollon. Rhod iii. 41; Callim. Hymn. in Dian. 47; Serv. ad Aen. viii. 416; Strab. p. 275; Plin. H. N. iii. 9; Val. Flacc. ii. 96.)

Hefesto é para os deuses como Atena é para as deusas, por, como ela, dar a artistas mortais habilidade, e, junto com ela, foi atribuído a ele o ensinamento aos homens das artes que embelezam e enfeitam a vida. (Od. vi. 233, xxiii. 160. Hymn. in Vaulc. 2. &c.) Porém ele não possuía o caráter sublime de Atena. Em Atenas os dois partilhavam templos e festivais em comum. (Ver: Dict of Ant. s. v.Hêphaisteia, Chalkeia.) A ambos eram atribuídos poderes curativos, e a terra de Lêmnian, no lugar em que ele caiu, curava a loucura, picadas e cobras e hemorragias, e os sacerdotes do Deus sabiam como curar ferimentos provocados por serpentes. (Philostr. Heroic. v. 2; Eustath. ad Hom. p. 330; Dict. Cret. ii. 14.)

Os epítetos e sobrenomes pelos quais Hefesto era designado pelos poetas geralmente fazem alusão a sua habilidade com artes plásticas, a sua compleição física e aleijamento.

No templo de Atena Khalkioikos em Esparta, ele era representado no ato de libertar sua mãe (Paus. iii. 17. § 3). No peito de Cípselo, dando a Tétis a armadura de Aquiles (v. 19. Parágrafo 2); e em Atenas havia uma famosa estátua feita por Alcamanes, na qual sua deformação era sutilmente indicada. (Cic. de Nat. Deor. i. 30; Val. Max. viii. 11. § 3.). Os gregos frequentemente colocavam uma pequena estátua em formato de anão próximo à lareira, sendo estas representações as mais antigas. (Herod. iii. 37; Aristoph. Av. 436; Callim. Hymnn. in Dian. 60.). Durante o melhor período da arte grega, ele foi representado como um vigoroso homem barbudo, e caracterizado pelo seu martelo ou outro tipo de instrumento, boné oval, e chiton deixando amostra seu ombro e braço direito.

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